UMA PORTA E UM GRANDE ABISMO
“Um pobre, chamado Lázaro, estava deitado à porta, coberto de chagas, querendo saciar-se com o que caía da mesa do rico...” (Lc 16,20)
Texto Bíblico: Lc 16,19-31
1 – O que diz o texto?
Lucas, mais uma vez, nos introduz no tema de ricos e pobres, que, com esta parábola, alcança sua altura suprema.
A primeira parte da narração fala de um “rico” poderoso. Suas “vestes finas e elegantes”, indica luxo e ostentação. Só pensa em banquetes suntuosos todos os dias.
O rico não tem nome, pois não tem identidade humana. Não é ninguém. “Era tão pobre que só tinha riqueza”. Sua vida, vazia de amor solidário, é um fracasso.
Muito perto, junto à porta de sua mansão, está estendido um “mendigo”. Não está coberto de linho e púrpura, mas de feridas repugnantes. Não sabe o que é um festim; não lhe dão nem do que cai da mesa do rico para saciar sua fome. Só alguns cachorros de rua se aproximam para lamber suas feridas. Não tem ninguém. Não possui nada. Só um nome cheio de promessas: “Lázaro”, que significa “Deus é ajuda”.
O pobre está fora da porta, rodeado pelos cachorros da rua, mas só a uns passos da mesa do rico, que desperdiça comida em sua casa. O rico está dentro de casa, poucos metros os separam, mas há um abismo entre eles; não há palavras, não acontece nenhuma forma de comunicação entre eles.
Estão muito próximos, só os separa uma frágil porta, mas o rico não “vê” o pobre, não lhe interessa sua pobreza, não o olha, não o escuta...
A cena é insuportável. O rico tem tudo, sente-se seguro, não parece necessitar de ninguém. Vive fechado em si mesmo. Não vê o pobre que morre de fome junto à sua porta.
Lázaro, por sua parte, vive em extrema necessidade, faminto, enfermo, excluído, ignorado por aqueles que lhe podiam ajudar. Sua única esperança é Deus.
Jesus não pronuncia diretamente nenhuma palavra de condenação. Seu olhar penetrante está desmascarando a cruel injustiça daquela sociedade. As classes mais poderosas e os estratos mais oprimidos parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico não atravessa nunca para aproximar-se de Lázaro. Deus, que é Pai de todos, não pode aceitar essa cruel separação entre seus filhos.
A segunda parte da narração nos situa diante de uma grande mudança de perspectiva. A reviravolta é total. Ambos morrem, a morte os iguala, de maneira que o tema das riquezas passa a um segundo plano. Só permanecem eles, suas vidas..., perduráveis, de formas diferentes.
O pobre se salva porque foi simplesmente pobre. Salva-se pela misericórdia de Deus, ou seja, por graça (porque Deus é Deus). Por isso, a salvação é dom, pura graça.
O rico se condena por si mesmo, porque ele escolheu, porque não foi capaz de ver – descobrir - ajudar os pobres que estavam ao seu lado. Nessa linha, a condenação é a rejeição da graça da vida: não ter descoberto o outro.
2 – O que o texto diz para mim?
A conclusão que se deduz da parábola não é que os pobres do mundo devem manter-se como estão, já que esperam a glória futura depois da morte, mas que se abra a porta que separa o pobre do rico, de forma que possam comunicar-se.
Este relato não fala da condenação e salvação futura, mas da nova forma de vida compartilhada que deve se estabelecer neste mundo. O relato não quer que o pobre e o rico continuem vivendo simplesmente em mundos que se encontram hermeticamente selados, afastados um de outro, senão que se encontrem, que o rico abra a porta e ofereça ao pobre um lugar em sua mesa.
Durante o tempo de sua vida, o pobre mendigo e o rico fechado em seu “banquete” egoísta e em seu luxo não se relacionavam entre si, mas poderiam tê-lo feito, pois Lázaro jazia diante da porta da casa do rico: uma porta evoca a possibilidade de comunicação.
Depois da morte não tem como mudar as coisas. O tempo de mudança é este, esta vida.
Aquela barreira invisível na terra se converte agora em um abismo intransponível. O objetivo da parábola não é descrever o céu nem o inferno, mas condenar a indiferença dos ricos e poderosos.
3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Deus é o primeiro que deseja que eu viva bem, ao aproximar me de uma mesa, eu tenha o que comer, que eu possa me vestir com dignidade. Deus se alegra quando vê a mesa cheia de alimentos e todas as cadeiras ocupadas, todos com bom apetite, vivendo a partilha com o coração pleno de alegria e fraternidade.
Onde está então o problema? Está numa porta. Cresce cada vez mais o número de portas que impedem de ver, portas que distanciam da fome, do sofrimento, da pobreza, da desnudez que há do outro lado. A grande tragédia está no fato de levantar muros, cercas de proteção, portões eletrônicos, que me impedem ver os rostos dos outros, que me isola dos outros, que me fecha sobre mim mesma como se ninguém mais existisse.
Diz o ditado que “comer demasiado mel nos faz perder o sabor”; o demasiado bem-estar me impede ver o mal-estar dos outros; o fato de não carecer de nada, me faz insensível diante daqueles que carecem de tudo; a abundância pode ser um obstáculo para sensibilizar-me frente à carência dos demais.
4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ao ler o Evangelho, me dou conta de que Jesus, que não tinha nada, era muito sensível àqueles que careciam de tudo; em sua vida não havia nada que lhe impedisse ver a pobreza e o sofrimento dos outros. Isso despertava n’Ele a compaixão, o “sentir com” os outros. O que os olhos não veem não chega aos meus sentimentos. O que os olhos não veem não chega ao meu coração.
Claro que não basta ver. É preciso que o coração seja impactado. É preciso que a realidade me doa no coração. É preciso que a realidade me comova.
Não basta saber que existem os pobres; não bastam as estatísticas sobre a pobreza no mundo. É preciso dar um rosto ao enfermo, ao desnudo, ao faminto. A dor sem rosto não me diz nada. A nudez sem rosto não me afeta; a fome sem rosto não me impacta.
Nesta parábola Jesus desmascara e denuncia, com olhar penetrante, a realidade cruel da Galileia e também a do meu mundo atual.
5 – O que a Palavra me leva a viver?
Escancarar as portas dos meus preconceitos.
Escancarar as portas da minha insensibilidade.
Escancarar as portas dos meus pré juízos...
Escancarar as portas que me fazem acostumar a ver famintos, necessitados, explorados...
Tudo isso pode me tornar insensível. O que Jesus lamenta é minha insensibilidade e minha indiferença frente àqueles que passam penúria. Esta é minha condenação radical: uma barreira de indiferença, cegueira e crueldade separa o mundo dos ricos do mundo dos famintos. A riqueza pode ser um grande estorvo no coração; a púrpura e o linho podem ser um escândalo em um mundo de pobreza; os grandes banquetes podem ser um insulto em um mundo onde impera a fome.
Trata-se de uma parábola forte, clara e inquietante, que corta a respiração e me situa, a partir de Deus, na dinâmica das relações humanas. Deixar que a parábola se explique, que me fale, que me questione e que ilumine minha vida, essa é a melhor atitude diante dela.
Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lc 16,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
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26º Domingo do Tempo Comum, Ano C
TEXTO BÍBLICO: Evangelho de São Lucas 16,19-31
Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e vivia banqueteando-se todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, estava sentado junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Lá na outra vida, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas. Abraão respondeu-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo. O rico insistiu: Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas. Devem ouvi-los. Mas ele insistiu: Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Abraão respondeu-lhe: Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão.
- L E I T U R A:
Mais uma parábola de ensinamento de Jesus. Um homem rico, mostrava isso pelas vestes e pelos banquetes que realizava. Lázaro, pobre, à porta, com fome, nem recebia os restos da comida. O pobre morre e o rico também. Na outra vida o rico, no sofrimento, vê Lázaro feliz. Pede a Abraão que Lázaro traga gotas d´água para saciar sua sede. Abraão, que então tomava conta da porta do céu, lhe diz que não é possível. O rico pede para avisar seus irmãos que estão no mesmo caminho dele. Abraão lhe diz que eles sabem disto pelos profetas. Abrão repete que eles podem evitar sim vir para o tormento se seguirem as leis divinas.
Sobre que pessoas fala a parábola de Jesus? Quem eram? Que faziam?
- Qual o fim dos dois? Para onde foram?
- Com quem o rico conversou? Que pediu primeiro? E depois?
- Qual a resposta de Abraão? Quem na terra orientava então as pessoas?
- M E D I T A Ç Ã O:
Deus nos deu esta terra maravilhosa para conduzir nossa vida. Crescemos, e gostamos: conquistamos nosso bem estar. O que conseguimos com nosso trabalho acaba sendo a finalidade de nossa vida. Para não perdermos esta comodidade esquecemos outros que nem tem o necessário. Nem prestamos atenção neles. Poderiam estar à porta de nossa casa passando fome! Até na vida religiosa podemos aceitar uma vida cômoda, sem sofrimento nem necessidades.
- O que entendo por riqueza, pobreza? Que faço então?
- Tenho em casa muita coisa sobrando? Por quê? Para quê?
- As festas em nossa família são exageradas de gastos? Para quê?
- O que penso dos pobres e que faço por eles?
- Que senti quando perdi algo valioso de bem material? Por quê?
O R A Ç Ã O:
Obrigado, Senhor, pelos bens naturais que me deste. Obrigado por facilitar adquirir mais bens para melhorar minha vida. Ensina-me a repartir com os outros o bens que tenho. Quero diminuir minha vontade de gastar, de comprar.
Eu te louvo, Senhor, por todo o bem que me fez e me dá. O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos por meio de cada um de nós. O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva e confunde o caminho dos pecadores. O Senhor reina eternamente. O teu Deus, é Rei de todos. Sl 145 (146)
- C O N T E M P L A Ç Ã O:
Orar, colocar-me diante de Deus, sem nada segurar, sem a nada me prender, pode ajudar-me a compreender o verdadeiro valor da riqueza ou de tanta coisa que possuo. Na doença, num lugar deserto, ou quando perdemos algo a que dávamos tanto valor, o que sentimos? Como viajando de avião, no espaço do céu: a terra fica tão pequena, tão longe. E eu continuo eu mesmo, com tudo o que tenho em minha mente e coração. As lembranças boas do passado, as alegrias tão puras de nossa infância sem ter tanta coisa… O carinho de nossa mãe, a força do braço de nosso pai, as brincadeiras de um avô querido, o riso tão amoroso de uma avó tão fofa… São imagens fiéis de Deus que tanto nos ama… mais que tudo o que temos.
- Propostas de ação:
- Nesta semana vou organizar melhor os meus gastos, minhas compras. Evitarei comprar supérfluos.
- Vou ver o que está sobrando em meu armário de roupas e objetos para logo entregar a quem precisa.
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