Lectio Divina 5ª-feira da 16ª Semana do Tempo Comum

Mateus 13,10-17
Então os discípulos chegaram perto de Jesus e perguntaram:
— Por que é que o senhor usa parábolas para falar com essas pessoas?
Jesus respondeu:
— A vocês Deus mostra os segredos do Reino do Céu, mas, a elas, não. Pois quem tem receberá mais, para que tenha mais ainda. Mas quem não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que eu uso parábolas para falar com essas pessoas. Porque elas olham e não enxergam; escutam e não ouvem, nem entendem. E assim acontece com essas pessoas o que disse o profeta Isaías:
“Vocês ouvirão, mas não entenderão;
olharão, mas não enxergarão nada.
Pois a mente deste povo está fechada:
Eles taparam os ouvidos
e fecharam os olhos.
Se eles não tivessem feito isso,
os seus olhos poderiam ver,
e os seus ouvidos poderiam ouvir;
a sua mente poderia entender,
e eles voltariam para mim,
e eu os curaria! — disse Deus.”
Jesus continuou, dizendo:
— Mas vocês, como são felizes! Pois os seus olhos veem, e os seus ouvidos ouvem. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: muitos profetas e muitas outras pessoas do povo de Deus gostariam de ver o que vocês estão vendo, mas não puderam; e gostariam de ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram.
Oração
Jesus ensina por meio de parábolas, mas há uma diferença na recepção de sua mensagem. Aqueles que são íntimos Dele compreendem bem o que o Verbo de Deus diz, porque têm o coração aberto. Os outros, aqueles que preferem fechar o coração a Jesus, até recebem as palavras Dele, mas veem tudo como meras historinhas, não sendo capazes de mergulharem na profundidade espiritual que elas trazem. Para aqueles que se dispõem a seguir e imitar o Mestre, as parábolas são pílulas atemporais de respostas à fé. Para os outros, não são nada disso. Portanto, para que as parábolas tenham sentido, é preciso experimentar Jesus.
Quando experimentamos Jesus, nossos olhos enxergam e nossos ouvidos ouvem. A mente tudo compreende, porque a mensagem Dele se faz simples aos humildes e tementes a Deus. Hoje precisamos nos alegrar pelo privilégio de podermos experimentar Jesus, porque Ele nos traz a cura e nos permite uma vida alicerçada na esperança. Com Jesus, nos veio a possibilidade do Reino de Deus.
Peçamos hoje a Jesus para que convivamos com Ele todos os dias de nossa vida. Nele, nossos dias ganham sentido e há sempre a possibilidade de sua Palavra, capaz de oferecer respostas às necessidades de cada tempo. Pela graça do Espírito de Deus, tenhamos definitivamente coração aberto, porque assim nossos olhos e ouvidos experimentarão a bondade de nosso Deus em todas as situações da vida.

Ofício Divino 5ª-feira da 16ª Semana do Tempo Comum

OFÍCIO DA MANHÃ



1. CHEGADA - silêncio - oração pessoal



2. ABERTURA

- Estes lábios meus, vem abrir, Senhor,

  Cante esta minha boca sempre o teu louvor!

- Venham, adoremos a nosso Senhor.(bis)

  Hoje ele nos reúne em seu grande amor.(bis)

- Venham em seu nome, venham se alegrar,

Ele é a nossa força, vamos aclamar.

- Desde muito tempo, desde Israel,

Bom é lembrar seus feitos, seu amor fiel.

- Para quem caminha ele reservou

O mel que sai da rocha e o trigo em flor

- Glória ao Pai e ao Filho e ao Santo Espírito.(bis)

  Glória à Trindade Santa, glória ao Deus bendito.

- Aleluia, irmãs, aleluia irmãos!(bis)

  Do povo que trabalha, a Deus louvação! (bis)



3. RECORDAÇÃO DA VIDA

Neste nosso ofício da manhã, convidamos você que está sintonizado conosco, a consagrar esta primeira hora do dia, bendizendo a Deus  pela graça de viver, pela esperança que renasce em cada manhã... Oremos em comunhão com as pessoas que neste momento se dirigem para um dia de trabalho e de luta pela sobrevivência, que oferecem a Deus o sacrifício de louvor da sua própria vida... Juntemos nossa voz ao louvor de toda a criação, cantando o nosso hino.



4. HINO

1. Ó luz radiosa e multiforme,

Brotada das águas do batismo

E descida do céu,

Nós te adoramos.

2. Ó luz sideral e esplendorosa,

No meio da nossa noite oculta

De tristeza e de dor,

Nós te adoramos.

3. Ó luz matinal e jubilante,

Qual fogo de amor sobre a distância

De todos os mortais,

Nós te adoramos.

4. Ó luz infinita e aconchegante,

Cantada na paz do nosso encontro,

No interior e ao redor,

Nós te adoramos.

5. SALMODIA

Salmo 57(56)

"Vão por todo o mundo e proclamem o Evangelho a toda criatura" (Mateus 28,19.

O amor do Senhor por seu povo não conhece limites, nem barreiras. Apresentemos a Ele nosso compromisso de cantar o seu amor continuamente em nosso dia-a-dia.

Até o céu chegue ó Deus a tua glória.

Vem governar nossa terra,

nossa história!

1. Meu coração está firme, ó meu Deus,

meu coração está firme, eu vou cantar;

despertai todos, minha glória, meu violão,

meu cavaquinho, a manhã vou despertar!

2. Eu vou louvar-te entre os povos, ó Senhor,

entre as nações para ti eu vou tocar,

pois teu amor é maior do que os céus

tua verdade nas nuvens a chegar!

3. Ao Pai do céu demos glória todo dia

e a seu Filho, Jesus, vamos louvar,

e ao Espírito suave ventania,

meus irmãos, vamos todos festejar!



Salmo 147(147),12-20 – parte B



Glorifica o Senhor, Jerusalém!  

Celebra o teu Deus, ó Sião.

- Pois reforçou com segurança as tuas portas

e os teus filhos em teu seio abençoou;

- a paz em teus limites garantiu

e te dá como alimento a flor do trigo.

- Ele envia as suas ordens para a terra

e a palavra que ele diz corre veloz;

- Ele faz cair a neve como lã

e espalha a geada como cinza.

- Como de pão lança as migalhas do granizo,

a seu frio ficam as águas congeladas;

- Ele envia sua Palavra e as derrete,

sopra o vento e de novo as águas correm.

- Anuncia a Jacó sua Palavra,

seus preceitos, suas leis a Israel;

- Nenhum povo mereceu tanto carinho,

a nenhum outro revelou os seus preceitos.

- Gloria a Deus presente em nossa história

e a Jesus que o Pai nos enviou,

- ao Espírito de Deus amor materno

toda graça, toda honra e louvor.



6. LEITURA BÍBLICA - Romanos 15,1-3

Leitura da carta do apóstolo Paulo aos Romanos.

Nós que temos convicções firmes devemos suportar as fraquezas dos menos fortes e não buscar nossa própria satisfação. Cada um de nós procure agradar ao próximo para o bem, visando a edificação. Com efeito, Cristo também procurou a sua própria satisfação, mas, como está escrito: os ultrajes dos que te ultrajavam caíram sobre mim. Palavra do Senhor. T: Graças a Deus.



Responso:

Quero cantar tua força, Senhor.

Aclamar pela manhã o teu amor.

Sim, nosso Deus és rochedo fiel.

Aclamar pela manhã ...

Como são grandes tuas obras, Senhor.

Aclamar pela manhã

Todos os povos te adoram, ó Deus.

Aclamar pela manhã ...

Quero cantar tua força Senhor.

Aclamar pela manhã ...



7. MEDITAÇÃO - silêncio - partilha - refrões



8. CÂNTICO DE ZACARIAS

1. Bendito o Deus de Israel

   Que seu povo visitou

   E deu-nos libertação          

   Enviando um Salvador,    

   Da casa do rei Davi,

   Seu ungido servidor.

2. Cumpriu a voz dos profetas        

   Desde os tempos mais antigos,

   Quis libertar o seu povo    

   Do poder dos inimigos,

   Lembrando-se da aliança  

   De Abraão e dos antigos.

3. Fez a seu povo a promessa

   De viver na liberdade,

   Sem medos e sem pavores

   Dos que agem com maldade          

   E sempre a ele servir          

   Na justiça e santidade.

4. Menino, serás profeta      

   Do Altíssimo Senhor          

   Pra ir à frente aplainando  

   Os caminhos do Senhor,

   Anunciando o perdão        

   A um povo pecador.

5. É ele o Sol Oriente

   Que nos veio visitar.          

   Da morte, da escuridão,

   Vem a todos libertar.        

   A nós seu povo remido

   Para a paz faz caminhar.

6. Ao nosso Pai demos glória

   E a Jesus louvor também.

   Louvor e glória, igualmente,

   Ao Espírito que vem.        

   Que nosso louvor se estenda

   Hoje, agora e sempre. Amém!



9.  PRECES

Apresentemos nosso louvor e as necessidades de todo o povo ao Senhor, Deus da aliança.

Escuta-nos, Senhor!

- Firma, ó Pai, os passos dos que trabalham pela paz, para que alcancem frutos de justiça.

-  Renova, Senhor, as maravilhas de tua ação libertadora para todos os que estão cativos e esmagados pela opressão.

- Aumenta a comunhão entre nós e as comunidades do mundo inteiro.

Preces espontâneas...

Pai nosso...



Oração

Ó Deus, pela vinda de Cristo, Jesus, nos reuniste e nos escolheste para continuar a mesma caminhada dos profetas, discípulos e mártires. Nós te agradecemos e pedimos a força do teu Espírito, para sermos fiéis nesta missão tão importante que a nós confiaste. Por Cristo, Jesus, nosso Senhor. Amém.



10.  BÊNÇÃO

Pela força feminina do Espírito, o Senhor acenda em nós o fogo do seu amor, e nos abençoe agora e sempre. Amém!

Abençoe-nos, o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Amém.

- Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

  Para sempre seja louvado!            





 Baixar PDF

5ª-feira da 16ª Semana do Tempo Comum

Leitura Orante
Tempo Comum – Anos Ímpares – XVI Semana – Quinta-feira

Lectio

Primeira leitura: Êxodo 19, 1-2.9-11.16-20

Na terceira Lua-nova depois da saída dos filhos de Israel da terra do Egipto, naquele mesmo dia, chegaram ao deserto do Sinai. 2Partiram de Refidim e chegaram ao deserto do Sinai e acamparam no deserto. Israel acampou lá, diante da montanha. 9O Senhor disse a Moisés: «Eis que Eu venho ter contigo no coração da nuvem, para que o povo oiça quando Eu falar contigo e também acredite em ti para sempre.» E Moisés transmitiu ao Senhor as palavras do povo. 10O Senhor disse a Moisés: «Vai ter com o povo, e fá-los santificar hoje e amanhã; que eles lavem as suas roupas. 11Que estejam prontos para o terceiro dia, porque no terceiro dia o Senhor descerá aos olhos de todo o povo sobre a montanha do Sinai. 16E eis que, no terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem pesada sobre a montanha, e um som muito forte de trombeta, e todo o povo que estava no acampamento tremia. 17Moisés fez sair o povo do acampamento ao encontro de Deus, e colocaram-se no sopé da montanha. 18A montanha do Sinai estava toda coberta de fumo, porque o Senhor tinha descido sobre ela no fogo; e o seu fumo subia como o fumo de um forno, e toda a montanha tremia muito. 19O som da trombeta era cada vez mais forte. Moisés falava, e Deus respondia-lhe no trovão. 20O Senhor desceu sobre a montanha do Sinai, no cimo da montanha. O Senhor chamou Moisés ao cimo da montanha, e Moisés subiu.

O texto que hoje escutamos prepara a grande teofania em que será concluída a aliança do Sinai. Esta aliança é um pacto de confiança recíproca entre Deus e Israel, que supõe uma ligação especial, com obrigações mútuas, que caracterizarão esse povo e essa fé. O acontecimento é preparado com abundância de pormenores, que servem para realçar a majestade de Deus, a sua absoluta soberania, o respeito que inspira, a atitude de temor e de reverência que suscita no povo.
O Deus do Sinai é ainda um Deus que infunde temor: é preciso permanecer longe d´Ele, não se Lhe pode ver o rosto, está rodeado por trovões, relâmpagos e fogos. Todas estas imagens sublinham a transcendência de Deus, um Ser que permanece sempre para além e acima de nós, das nossas concepções e imaginações. Moisés conseguiu resistir na presença de Deus, solitário, no cimo do Sinai, depois de quarenta dias e quarenta noites de jejum.
Quão diferente é o Deus do Novo Testamento! É um Deus que revela outros aspectos da sua divindade, tais como a bondade, a graça, o perdão, a paternidade divina manifestada em Jesus.

Evangelho: Mateus 13, 10-17

Naquele tempo, 10aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Porque lhes falas em parábolas?» 11Respondendo, disse-lhes:«A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado. 12Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado. 13É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender. 14Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. 15Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar. 16Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»

Que pretendia Jesus, ao servir-se de parábolas que os seus ouvintes não podiam entender? Esta questão preocupava os cristãos das primeiras comunidades, que sentiam a necessidade de explicar e interpretar essa forma de anúncio inacessível de modo imediato e, por outro lado, enfrentavam a oposição e o escândalo do povo eleito que, em grande parte, não tinha acolhido o Messias. A resposta já foi apontada na parábola do semeador: há quem esteja disponível e há quem resista à palavra de Jesus. Essa atitude interior faz toda a diferença. Há quem se converta e atinja a bem-aventurança, e há quem não se converta, ouvindo sem compreender e vendo sem perceber. Deus anunciara a Isaías (6, 9s.) as dificuldades que o profeta havia de encontrar na sua missão. Tudo isso se verificou na vida do profeta, mas, sobretudo, na vida de Jesus e, depois d´Ele, na vida da Igreja. A Bíblia aponta a Deus como causa primeira dos eventos, mas não é Ele que determina a docilidade ou a dureza do coração do homem. Isso depende do próprio homem, chamado a assumir, em primeira pessoa, a responsabilidade pelas suas opções diante da palavra que lhe é dirigida.

Meditatio

As leituras Deus de hoje mostram-nos que Deus tem vários modos de Se revelar e de manifestar a sua vontade. No Sinai, manifesta-se na fúria da natureza, em «trovões e relâmpagos e uma nuvem pesada sobre a montanha, e um som muito forte de trombeta» (v. 16). Era neste cenário que «Moisés falava, e Deus respondia» (v. 19).
No evangelho, Jesus fala de modo muito simples e humano, uma vezes explicitamente e outras em parábolas, conforme os ouvintes. Verdadeiramente, como diz o autor da Carta aos Hebreus, «muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho» (Heb 1, 1-2). Mas, como quer que a voz de Deus se faça ouvir, é fundamental estar atentos, e acolher a Palavra com docilidade: a esses «é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu» (v. 11). Mas, os que fechas os ouvidos à Palavra, os que lhe resistem, estão condenados, porque «fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar», diz o Senhor. É fácil fazer ouvidos surdos ao Senhor, quando outras vozes nos agradam mais. Mas não passam de vozes, de ar em movimento!
A essência de Deus e da manifestação da sua vontade pertencem ao mundo divino, sobrenatural. Com as nossas forças, com a nossa razão, não podemos compreender ou ter uma ideia sobre a realidade divina. Precisamos da iluminação de Deus, que nos permite ver mais além do que a nossa razão humana. Vem em nossa ajuda a fé, a capacidade dada por Deus ao homem, que lhe permite acolher com humildade e reconhecimento tudo quanto Deus lhe queira revelar.

Oratio

Senhor, dai-nos a graça de sabermos ouvir e seguir a tua voz, de reconhecer a tua luz, para que possamos usufruir da bem-aventurança prometida: «Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Porque muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!» (Lc 10, 23). Quão grande é, Senhor, o dom que nos concedes na tua palavra escrita e na tua Palavra viva,
Jesus, o Verbo do Pai! Obrigado, Senhor! Obrigado! Amen.

Contemplatio

Os Magos dão-nos uma grande lição de docilidade e de conformidade à vontade divina. A sua docilidade mostra primeiro que estavam habitualmente recolhidos, calmos, interiores. Estavam atentos às luzes e às graças divinas. A estrela maravilhosa foi vista por um grande número de pessoas, no entanto somente os três reis Magos, que merecem verdadeiramente o nome de sábios, é que seguiram a sua direcção. Recordaram-se da predição de Balaão: uma estrela surge de Jacob (Num 24,17). As almas agitadas, distraídas, não compreendem os conselhos divinos. Numa água tranquila e clara, o sol pode reflectir-se com toda a sua grandeza, beleza e brilho, pode aí fazer penetrar os seus raios benfazejos, do mesmo modo que toda a ligeira brisa aí é sentida. Não é assim com as águas turvas, agitadas pelo furacão, revoltas em ondas de espuma: estas águas representam as almas agitadas pelo pecado, pelas paixões e pelos maus hábitos. Os Magos seguem atrás de uma estrela, sem saberem aonde é que ela os conduz; mas uma luz interior os esclarece e seguem-na docilmente. Imitemos a sua fidelidade em seguirem as inspirações da graça. Eles acreditam no que Deus lhes revelou, por mais misterioso e obscuro que isso lhes pareça. Empreendem uma longa e difícil viagem. Submetem-se a grandes sacrifícios e a grandes fadigas para irem adorar o Menino Salvador. Deus não tem necessidade das nossas oferendas, mas ama um coração generoso e dedicado. Assim eles serão recompensados encontrando o Menino divino e sua Mãe. (Leão Dehon, OSP 3, p. 29s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e ouvir o que estais a ouvir» (Mt 13, 17).

Sagrado Coração e Jesus

(Sexta-feira a seguir ao Domingo II depois do Pentecostes)

O culto à Humanidade de Cristo e ao seu Coração, nascido entre os místicos medievais, como escola exigente de santidade, popularizou-se depois das revelações a Santa Margarida Maria Alacoque (1673-1675). Muitos cristãos viveram esta espiritualidade e, por meio dela, se santificaram aos longos dos últimos séculos. Há que voltar às suas fontes bíblicas e patrísticas dessa espiritualidade para redescobrirmos a sua riqueza e atualidade. Levando-nos a responder ao amor de Cristo, amando-O e unindo-nos ao seu amor ao Pai, o culto do Coração de Jesus também nos leva a amar os irmãos, particularmente os pequenos e pobres, abrindo-nos à solidariedade fraterna.

Lectio

Primeira leitura do Ano A: Deuteronómio 7, 6-11

Naqueles dias, Moisés falou ao povo nestes termos: “Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus. Na verdade, o Senhor, teu Deus, escolheu-te para seres para Ele um povo particular entre todos os povos que há sobre a face da terra.» 7«Não foi por serdes mais numerosos que outros povos que o Senhor se agradou de vós e vos escolheu; vós até éreis o mais pequeno de todos os povos. 8Porque o Senhor vos ama e é fiel ao juramento que fez a vossos pais, por isso, é que, com mão forte, vos tirou e vos salvou da casa da servidão, da mão do faraó, rei do Egipto. 9Reconhece, pois, que o Senhor, teu Deus, é que é Deus, o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade para com os que o amam e observam os seus mandamentos até à milésima geração. 10Ele castiga, porém, a cada um dos seus inimigos, fazendo-os perecer; não tardará em dar castigo a cada um dos que o odeiam. 11Observarás, pois, os mandamentos, as leis e os preceitos, que Eu hoje te mando pôr em prática.

“Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus” (v. 6). Esta definição é feita pelo profeta no contexto da pregação do mandamento capital: “Escuta, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!” (6, 4). O povo violou este mandamento aceitando divindades cananeias. Daí a catástrofe do exílio. O autor sagrado coloca na boca de Moisés o discurso que os profetas faziam desde o século VIII a. C. Trata-se simultaneamente de uma denúncia e de uma promessa: Israel não está a morrer, mas no transe para renascer como novo povo de Deus, preparando-se para entrar na terra prometida. Conhecida a própria identidade, - ser um povo consagrado ao Senhor - há que viver em consonância com ela. A libertação, e a escolha feita por Deus, devem-se unicamente ao Seu amor. A resposta de Israel só pode ser amar o Senhor, fazendo a sua vontade, expressa nos mandamentos.

Segunda leitura do Ano A: 1 João 4, 7-16

Caríssimos: Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. 8Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 9E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. 10É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. 13Damos conta de que permanecemos nele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito. 14Nós o contemplámos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.

Deus é amor em Si mesmo, e é a verdadeira fonte do amor para nós. O único caminho para chegar a Deus é o amor. O amor de Deus foi-nos mostrado em Cristo, para nossa salvação. João afirma que, pela sua fé, teve a felicidade de reconhecer presente no mundo, na Pessoa de Jesus, o amor de Deus. Levar os outros homens a descobrir este amor de Deus presente no mundo, é missão de todo o cristão. É através do testemunho do nosso amor fraterno, através da nossa doação efetiva aos outros, que podemos levar os homens a acreditar no amor de Deus, que enviou ao mundo o seu Filho.

Evangelho: Mateus 11, 25-30

Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos.26Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

À semelhança dos mestres do seu tempo, Jesus anda rodeado pelos seus discípulos a quem revela a paternidade divina, isto é, que Deus é Pai, sobretudo de Jesus e, por meio d´Ele, dos crentes. É o máximo que se pode dizer da relação de Deus com os homens e dos homens com Deus. Ao contrário do que acontecia, Jesus não recruta os seus seguidores entre os sábios e poderosos do seu tempo, mas entre os pequenos e humildes, aqueles que efetivamente esperam o Reino e estão dispostos a acolhê-lo. Jesus introdu-los na compreensão do Mistério de Deus, descobrindo assim o segredo da alegria e da verdadeira felicidade.

Meditatio

Escolhemos para a Lectio divina, na Solenidade do Coração de Jesus, as leituras do Ano A. Mas, nos três anos litúrgicos, o tema é sempre o mesmo: o amor de Jesus pelos homens. Não se trata do amor de Deus em geral, como aquele de que nos falam os profetas, mas do amor de Deus feito carne. O Coração de Jesus é o que há de mais profundo na humanidade assumida pelo Verbo. É o “ponto” onde toda a humanidade de Jesus se recolhe e encontra com a divindade, realizando, assim, o grande mistério de Deus feito homem. Se toda a humanidade de Jesus é o sacramento primordial da salvação, o seu Coração é-o de modo muito especial.
A espiritualidade do Coração de Jesus, como forma distinta, nasceu no século XIII, quando os burgos se libertavam do feudalismo... É nesse momento que nasce a nova corrente espiritual. Originariamente trata-se de uma espiritualidade monástica, sobretudo dos mosteiros femininos. Esta via monástica fez da espiritualidade do Coração de Cristo uma escola mística, uma escola de santidade, algo de exigente e de profundo. Trata-se de uma espiritualidade que é contemplação e não devoção. Fala-se do Crucificado de Lado aberto, e não tanto de Coração trespassado... É preciso voltar à mística, que fala à antropologia atual e, ultrapassando as práticas devocionais e outras incrustações dos últimos séculos, apoiando-a na sólida rocha do mistério do Verbo encarnado, voltar à espiritualidade do Coração de Jesus, fonte sempre válida de salvação e de santidade.
O Coração de Jesus é nosso berço: “Todos lá nascemos... Uns e outros lá nasceram”, como diz um Salmo de Sião (Sl 87, 4-6). O Coração de Jesus é a nossa Sião: “todas as nossas fontes estão em Ti”. Nascemos d´Ele: “Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja” (Cst. 3; cf. Pe. Dehon, Études sur le Sacré-Coeur, I, p. 114).
Porque é que a Igreja nos propõe o Coração como sinal concreto do amor divino-humano de Jesus, como expressão mais evocadora do amor com que Deus nos ama? Porque, na Bíblia, o coração é a parte mais nobre e mais importante do homem. É o “núcleo íntimo da pessoa”, sede da sua vida espiritual, lugar por excelência do encontro com Deus. Do coração nasce o que inquina o homem, mas também o que o santifica. O coração representa, pois, aquilo que, hoje, chamamos o “eu” profundo, o “eu” secreto. No culto ao Coração de Jesus, honramos toda a pessoa do Redentor e somos conduzidos à fonte dos seus sentimentos e das suas ações salvíficas. Esta concentração de interesse à volta do Coração de Jesus remonta já ao Novo Testamento, ao momento da morte de Cristo. S. João, com a extraordinária – e, quase diríamos, desproporcionada – importância que dá à transfixão de Jesus na cruz, abre o caminho que conduzirá à contemplação do Lado aberto e ao culto do Coração de Jesus. O seu comentário ao episódio: “Hão-de olhar para aquele que trespassaram”, revelar-se-á uma profecia.
Para nós, hoje, o coração já não representa o que representava para o homem bíblico. Todavia ainda encontramos na linguagem comum e no sentimento popular expressões que se aproximam do conceito bíblico: “tem bom coração”, “tem mau coração”, “é um homem de coração”... Hoje, as funções mais nobres do homem são atribuídas ao cérebro, à inteligência, à vontade... Mas ainda há uma coisa que nos ajuda a compreender, por analogia, o significado do Coração de Jesus: o coração é o motor de todo o corpo; a vida e a morte são assinaladas por ele; está presente em todo o organismo e fá-lo vibrar com o seu próprio movimento; a ele aflui o sangue venoso, que é regenerado, reciclado e reenviado a todos os membros do corpo. É o que faz, a nível espiritual, o Coração de Jesus no grande corpo que é a Igreja! No Coração de Jesus aconteceu a primeira purificação de todos os pecados, a regeneração da esperança e do amor humano. Todo o perdão, toda a graça, toda a inspiração, toda a esperança e toda a alegria, todo o impulso de unidade e de fraternidade que experimentamos na nossa vida, parte do centro que é o Coração de Jesus. Foi esse o desígnio do Pai: que nele habitasse “toda a plenitude”, graça sobre graça (cf. Col 2, 9; Jo 1, 16). A razão de tudo isto é que, naquele Coração, sobre a cruz, se consumou um ato de obediência total e perfeita a toda a vontade de Deus; por isso, Deus O exaltou e colocou nas suas mãos a salvação de todos os homens. O Coração de Jesus é a mina em que se encontram “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (cf. Col 2, 3).
Conforta-nos saber que este Coração continua vivo. Há quem acuse a devoção ao Coração de Jesus de se fixar demasiado no mistério da Paixão, no Jesus histórico, esquecendo o mistério da Ressurreição. O próprio Pe. Dehon dá essa impressão a quem se aproxima superficialmente das suas obras. Na verdade, o Pe. Dehon, como toda a espiritualidade do Coração de Jesus, não esquece a Ressurreição. Fala dela ao falar da Eucaristia, onde Cristo está ressuscitado e glorioso. O Ressuscitado, para o Pe. Dehon, não é um conceito mais ou menos abstrato. É algo de muito real: vive na Eucaristia. Daí a importância do culto eucarístico na espiritualidade e do culto do Coração de Jesus.
O Coração de Jesus vive “no Espírito” como todo o Cristo. Vive também no coração daqueles que n´Ele acreditam e O amam. O Coração de Jesus é aquele “coração novo”, que Deus nos prometeu por meio de Ezequiel (11, 19), e que nos foi dado no batismo. É o “coração de carne” que, pouco a pouco, deve assumir o lugar do “coração de pedra” que levamos dentro de nós desde o nascimento e que tornámos mais duro com o nosso pecado.
S. Paulo recomenda: “Tende em vós os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus(Fil 2, 5). Ter os mesmos sentimentos, quer dizer ter o mesmo coração, amar, pensar, agir como Ele amou, pensou, agiu. Amar o próximo, como nos recomenda o Evangelho, é amar com o Coração de Jesus, é permitir a Jesus continuar a amar por meio de nós. Viver a nossa vocação de oblatos, unindo toda a nossa vida religiosa e apostólico à oblação reparadora de Cristo ao Pai, pelos homens (cf. Cst n. 6) é “inserir-nos no movimento de amor redentor” (Cst 21) suscitado por Cristo na sua Encarnação, Paixão, Ressurreição, obra do seu amor, do seu Coração.

Oratio

Senhor Jesus, hoje quero rezar-te com S. Bernardo e com o Pe. Dehon. O teu Coração é modelo para regular os movimentos do meu, e fundo para pagar o que devo à justiça divina, é lugar seguro onde, estando a coberto dos naufrágios e das tempestades, direi com David: encontrei o meu coração para orar a Deus. Sim, encontrei este Coração na divina Eucaristia, ao encontrar aí o Coração do meu soberano, do meu bom amigo, do meu irmão, o Coração do meu amável Redentor. Ámen

Contemplatio

Foi unicamente por amor, que Jesus fez tudo o que fez, que viveu entre nós, que morreu por nós e que ainda vive por nós no céu e na santa Eucaristia. A lança repete à sua maneira aquilo que o Salvador tinha dito a Nicodemos: “Deus amou-nos até ao ponto de nos dar o seu Filho único”. Fê-lo nossa propriedade; tudo nos pertence, os seus méritos, os seus mistérios, a sua vida, a sua morte, a sua graça, a sua glória e sobretudo o seu amor. Porque, repete ainda S. João, aqueles que Jesus amou, amou-os até ao fim, isto é, sem fim e sem medida. Eis porque a lança abriu o seu Coração material, a fim de nos fazer conhecer a ferida do seu Coração espiritual, do seu amor que foi o obreiro da nossa salvação e da nossa Redenção… Jesus Cristo é o templo de Deus e o seu Coração é o Santo dos Santos, o altar do amor onde se operaram todos os mistérios e todos os sacrifícios. Tal é o significado primeiro da abertura do Coração adorável de Jesus. Este mistério ultrapassa todos os outros, porque a todos os contém. Que seria a oblação do Salvador, a sua vida, a sua imolação sobre a cruz, a sua morte mesma, se estes augustos mistérios não tirassem toda a sua seiva do seu Coração?…(L. Dehon, OSP 3, p. 380s.).

Actio

Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

----
Sagrado Coração e Jesus (Sexta-feira a seguir ao Domingo II depois do Pentecostes)

5ª-feira da 11ª Semana do Tempo Comum

Lectio

Primeira leitura: 2 Coríntios 11, 1-11

Irmãos: oxalá pudésseis suportar um pouco de insensatez da minha parte! Mas, de certo, ma suportareis. 2Sinto por vós um ciúme semelhante ao ciúme de Deus, pois vos desposei com um único esposo, Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura. 3Mas receio que, como a serpente seduziu Eva com a sua astúcia, os vossos pensamentos se deixem corromper, desviando-se da simplicidade que é devida a Cristo. 4Pois de boamente aceitais alguém que surge a pregar-vos outro Jesus diferente daquele que nós pregámos, ou acolheis um espírito diferente daquele que recebestes, ou um Evangelho diverso daquele que abraçastes. 5Ora, eu penso que em nada sou inferior a esses superapóstolos. 6E embora seja menos perito na palavra, não o sou, certamente, na ciência. Em tudo e de todas as maneiras vo-lo temos demonstrado. 7Porventura cometi alguma falta, ao humilhar-me para vos exaltar, quando vos anunciei gratuitamente o Evangelho de Deus? 8Despojei outras igrejas, recebendo delas o sustento para vos servir, 9e encontrando-me necessitado no meio de vós, não fui pesado a ninguém, pois os irmãos vindos da Macedónia é que proveram às minhas necessidades. Em tudo me guardei de vos ser molesto e continuarei a fazê-lo. 10Pela verdade de Cristo que está em mim, não me será tirado este motivo de glória nas regiões da Acaia. 11E porquê? Porque não vos amo? Deus o sabe!

Para compreender a terceira parte da Segunda Carta aos Coríntios, é preciso perceber as posições das duas frentes em choque. Paulo luta contra «superapóstolos» (v. 5), «falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçados de apóstolos de Cristo» (11, 13). A linguagem paulina é dura e está imbuída de uma fina e cortante ironia. Tratava-se, sem dúvida, de alguns judaizantes que tentavam criar desacordo na comunidade de Corinto, fazendo-se valer mais do que Paulo. Atribuíam grande valor ao próprio ministério apostólico, desprezando o de Paulo. Eram arrogantes, exigentes, duros, agressivos… Em relação a Paulo, censuravam-lhe precisamente o contrário. Acusavam-no de ser excessivamente benévolo e simples: «As suas cartas, dizem, são duras e enérgicas, mas quando está presente é fraco, e a sua palavra, desprezível» (10, 10). O Apóstolo defende-se destas e de outras acusações e declara o seu sentido de responsabilidade para com uma comunidade eclesial que ele mesmo, segundo a graça que lhe foi concedida, edificou como «sábio arquitecto» (1 Cor 3, 10). Orgulha-se também de ser o mediador do noivado da igreja de Corinto com Cristo. Apesar de celibatário (cf. 1 Cor 7, 7), Paulo conhece a vida matrimonial, servindo dessa imagem na sua eclesiologia cristológica (cf. Ef 5, 25b-27). Cristo é esposo, a Igreja é esposa. As núpcias são imagem do amor oblativo, libertador, purificador.

Evangelho: Mateus 6, 7-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7«Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. 8Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» 9«Rezai, pois, assim: ‘Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o teu nome, 10venha o teu Reino; faça-se a tua vontade, como no Céu, assim também na terra. 11Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia; 12perdoa as nossas ofensas, como nós perdoámos a quem nos tem ofendido; 13e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal.’ 14Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 15Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas.»

Depois de ter criticado o modo de orar dos fariseus e dos pagãos, Jesus ensina o Pai nosso. No tempo de Jesus, todos os grupos ou seitas religiosas tinham as suas orações específicas. No texto paralelo de Lucas (11, 1-4), os discípulos de Jesus pedem ao Mestre uma oração própria, a exemplo da que João Baptista tinha ensinado aos seus discípulos.
O cristão deve evitar a ostentação farisaica e a “poliloghia”, o palavreado dos pagãos, que soavam aos ouvidos de Deus como um enfadonho blá-blá…
Pai nosso que estais nos céus. Nas religiões antigas não era muito habitual dirigir-se a Deus como Pai. Mas, no Antigo Testamento, Deus era invocado com esse título, dada a sua relação especial com Israel, salvo da escravidão e protegido com evidentes sinais de intervenções divinas. Jesus é o Filho de Deus. Aqueles que O seguem participam dessa filiação divina. Por isso, O podem chamar Pai (abbá = papá, paizinho, pai querido).
Santificado seja o vosso nome. Na linguagem bíblica, o nome é a pessoa. Invocar o nome de Deus é invocar a Deus. Se Deus é o santo por excelência, que significa pedir que seja santificado? Significa pedir que Se manifeste, Se dê a conhecer e cumpra as suas promessas. Significa também pedir que a nossa vida cristã coerente leve outros à fé. Uma vida cristã incoerente pode levar à blasfémia do nome de Deus.
Venha a nós o vosso reino. O reino ou reinado de Deus significa a nova ordem ou estado das coisas, na qual a sua soberania é reconhecida e aceite. Este reino é actualidade e presença, a partir da presença de Jesus. Mas pede-se o seu reconhecimento no presente, e a sua plena revelação no futuro.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Pede-se a Deus poder para satisfazer as necessidades de cada dia e, provavelmente, o pão que é o próprio Cristo assimilado pela fé, o pão da eucaristia.
Perdoai-nos as nossas ofensas. Todos temos dívidas para com Deus, isto é culpas ou pecados, uma que vivemos sob a sua «graça» e não lhe somos sempre fiéis. Mas o perdão que pedimos é condicionado pelo perdão que concedemos, ou não, aos nossos «devedores».
Não nos deixeis cair em tentação. Aqui, tentação significa provação. Seremos julgados tendo em conta as nossas reacções às provações da nossa vida.
Livrai-nos do mal. Há duas formas de traduzir esta petição: livrai-nos do mal ou livrai-nos do maligno. Nos tempos de Jesus, considerava-se que o maligno, o demónio, estava por detrás de qualquer mal. Hoje não se pensa assim. Mas o confronto com o demónio é algo que faz parte da nossa experiência.

Meditatio

Nos primeiros tempos da Igreja, o Pai nosso fazia parte da coisas secretas da fé cristã. Os catecúmenos só o recebiam na vigília do Baptismo, quando também lhes era explicada a Eucaristia. Os que o recebiam guardavam-no como uma verdadeira relíquia, e ficavam ansiosamente à espera do momento em que, saindo da fonte baptismal, «rodeados pelos irmãos e aprese
ntados pela mãe Igreja», elevassem as mãos aos céus, e pudessem rezar pela primeira vez: «Pai nosso!», dando-se a conhecer a todos como filhos de Deus. É o que nos refere Tertuliano no seu livro sobre o Baptismo. É bom recordarmos estas coisas, porque talvez tenhamos banalizado o Pai nosso, repetindo-o maquinalmente, sem pensarmos no que estamos a dizer. Talvez tenhamos deixado perder o sentido de mistério tremendo que se esconde nessas palavras saídas da boca de Deus, e dirigidas aos ouvidos do mesmo Deus!
Precisamos de recuperar o Pai nosso da rotina com que o rezamos e que é como que uma camada de pó, que sobre ele se foi depositando, não o deixando brilhar dentro de nós. Dirigimo-nos a Deus chamando-lhe «Pai» e essa palavra já não provoca em nós qualquer emoção! Temos, pois, que recebê-lo novamente das mãos de Jesus, como quando os Apóstolos, vendo-O rezar, Lhe disseram: «Senhor, ensina-nos a rezar!» (Lc 11, 1). Então, Jesus, disse-lhes: «Quando orardes, dizei: Pai nosso». Que enorme espanto terão sentido os Discípulos ao escutarem a oração do Senhor, ao pronunciá-la pela primeira vez! O Pai nosso nasce do Coração de Jesus! É a oração do Filho ao Pai. Foi ao observar essa relação de profunda intimidade na oração, que os Discípulos perceberam que não sabiam rezar, que tinham de aprender a rezar com Jesus. E pediram -Lhe: «Senhor, ensina-nos a rezar!» (Lc 11, 1). Jesus ensinou-lhes a sua oração. O Pai nosso é a oração da Cabeça, comunicada aos Membros, que se torna oração de todo o Corpo de Cristo, que é Ele (Cabeça) e a Igreja (Corpo).
Quando rezamos o Pai nosso unimo-nos a Cristo que reza, unimo-nos aos seus sentimentos de respeito pelo Pai, aos seus sentimentos de ardor, de confiança, atrevimento, de emoção, de perseverança. O Pai nosso é a onda da oração de Jesus, que se propaga ao longo dos séculos e, como um pacífico tsunami, vai engrossando e tornando-se cada vez mais alterosa, ao recolher todas as vozes de súplica, todos os gritos que os homens erguem ao Céu.
Há uma grande semelhança entre o Pai nosso e a Eucaristia. A Eucaristia, perpetua Jesus que se dá ao Pai pelos homens, Jesus que está no meio de nós «como Aquele que serve» (Lc 22, 37). No Pai nosso, perpetua-se a presença de Jesus que «reza». O Senhor poderia dizer: «Estou no meio de vós como Aquele que reza». Ele está «sempre vivo a interceder por nós» (Heb 7, 25). Na Eucaristia, comungamos no Corpo de Cristo; no Pai nosso, comungamos na oração de Cristo. Trata-se de uma verdadeira «comunhão espiritual», que podemos repetir todos as vezes que quisermos, mesmo quando não é possível a comunhão sacramental. O Pai nosso é o Evangelho abreviado, o Evangelho em oração. Escreve S. Cipriano: «São poucas as palavras, mas é grande o seu poder espiritual. Não falta absolutamente nada nesta oração de súplica e de louvor, que forma um verdadeira síntese da doutrina celeste». O Pai nosso é um sopro vivo do Evangelho, que sai da boca d´Aquele que é o Evangelho em Pessoa, Jesus. Procuremos lê-lo, meditá-lo e rezá-lo desse modo, e nessa perspectiva.

Oratio

Pai nosso, nós Te louvamos, bendizemos e adoramos. Cremos firmemente em Ti e no amor com que, do alto dos céus, vigias sobre nós. Renovamos a nossa confiança no teu nome santo, renovamos a nossa disposição de acolher a tua vontade e de a cumprir e ajudar a cumprir, porque a tua vontade é o nosso bem, a nossa realização pessoal e comunitária, a nossa santidade, a nossa salvação. Damos-Te graças pelo pão de cada dia, por tudo quanto nos ofereces para vivermos dignamente nesta terra, comprometendo-nos a reparti-lo com os irmãos. Perdoa-nos as nossas ofensas, e ajuda-nos a perdoar àqueles que nos tenham ofendido. Não nos deixes cair em qualquer espécie de tentação, particularmente na de esquecermos a tua paternidade e na de desconfiarmos da tua misericórdia. Amen.

Contemplatio

Pai-nosso que estais nos céus, eu vos peço que vos digneis perdoar às almas não vos terem amado, não vos terem prestado o culto que vos é devido, a vós, seu Pai augusto e querido, mas de vos terem afastado do seu coração onde vós desejáveis habitar; e para suprir à sua falta, eu vos ofereço o amor e a honra que o vosso Filho querido vos prestou sobre a terra, e esta abundante satisfação pela qual pagou a dívida de todos os seus pecados. Que o vosso nome seja santificado; eu vos conjuro, ó terno Pai, que vos digneis perdoar às almas… por terem honrado dignamente o vosso santo nome, de o terem muito raramente recordado com devoção, de o terem muitas vezes usado em vão, e por se terem tornado, pela sua vida desonrada, indignos do nome de cristão. E como satisfação por este pecado, eu vos ofereço a perfeitíssima santidade do vosso filho pela qual exaltou o vosso nome nas suas pregações, e o honrou em todas as suas santíssimas obras. Que o vosso reino venha; eu vos peço, ó terno Pai, que vos digneis perdoar às almas… por não terem desejado com fervor, nem procurado com cuidado a vós e ao vosso reino, no qual unicamente consistem o verdadeiro repouso e a eterna glória. Para expiar toda a indiferença que elas tiveram por toda a espécie de bem eu vos ofereço os santos desejos pelos quais o vosso Filho quis que o vosso reino chegue e que nós sejamos os co-herdeiros do seu reinado. Que a vossa vontade seja feita assim na terra como no céu; eu vos conjuro, ó terno Pai, que vos digneis perdoar às almas, e sobretudo aos religiosos, terem preferido a sua vontade à vossa e por não terem amado em toda a vossa vontade, para viverem e agirem muitas vezes seguindo a deles. E para reparar a sua desobediência, eu vos ofereço a união do dulcíssimo Coração do vosso Filho com a vossa santa vontade, do mesmo modo que apronta submissão com a qual ele vos obedeceu até à morte da cruz.
Dai-nos hoje o nosso pão quotidiano; eu vos conjuro, ó terno Pai, para que perdoeis às almas não terem recebido o Santíssimo Sacramento do altar com os desejos, a devoção e o amor que ele merece; por se terem tornado, para um grande número, indignos, e por o terem muito raramente recebido. Para expiar o seu pecado, eu vos ofereço a perfeita santidade e a devoção do vosso Filho, bem como o ardente amor e o inefável desejo que o levaram a dar-nos este precioso tesouro. E perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos àqueles que nos ofenderam; eu vos conjuro, ó terno Pai, que vos digneis perdoar às almas os pecados nos quais elas caíram, sobretudo não perdoando àqueles que os tenham ofendido e não amando os seus inimigos. Por estes pecados, eu vos ofereço a oração da mais doce suavidade, que o vosso Filho fez sobre a cruz pelos seus inimigos. E não nos deixeis cair em tentação; eu vos conjuro, &oacute
; terno Pai, que perdoeis às almas não terem resistido aos seus vícios e às suas concupiscências, terem muitas vezes consentido nos embustes do demónio e da carne, e se deixarem voluntariamente envolver em muitas más acções. Pela multidão dos seus pecados, eu vos ofereço a gloriosa vitória pela qual o vosso Filho venceu o mundo e o demónio, assim como toda a sua santíssima vida, com todos os seus trabalhos e as suas fadigas, a sua tão amarga paixão e a sua morte. Mas livrai-nos do mal; de todo o mal e de toda pena, pelos méritos do vosso querido Filho, e conduzi-nos ao reinado da vossa glória, que outra não é senão vós mesmo. Assim seja. (Leão Dehon, OSP 4, pp. 429s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Senhor, ensina-nos a rezar» (Lc 11, 1).

5ª-feira da 11ª Semana do Tempo Comum

“— Nas suas orações, não fiquem repetindo o que vocês já disseram, como fazem os pagãos. Eles pensam que Deus os ouvirá porque fazem orações compridas. Não sejam como eles, pois, antes de vocês pedirem, o Pai de vocês já sabe o que vocês precisam. Portanto, orem assim:
‘Pai nosso, que estás no céu,
que todos reconheçam
que o teu nome é santo.
Venha o teu Reino.
Que a tua vontade seja feita aqui na terra
como é feita no céu!
Dá-nos hoje o alimento que precisamos.
Perdoa as nossas ofensas
como também nós perdoamos
as pessoas que nos ofenderam.
E não deixes que sejamos tentados,
mas livra-nos do mal.
[Pois teu é o Reino, o poder e a glória,
para sempre. Amém!]’
— Porque, se vocês perdoarem as pessoas que ofenderem vocês, o Pai de vocês, que está no céu, também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem essas pessoas, o Pai de vocês também não perdoará as ofensas de vocês.”

A proposta de cada dia, mas hoje de uma forma toda especial, é orar com o coração. Jesus nos ensina a colocar-nos como filhos diante do Pai. Não multipliquemos, então, as reflexões, mas saboreemos cada palavra e nos deixemos tocar profundamente pela oração das orações, que ensinamos às crianças na mais tenra idade.
As duas primeiras palavras resumem toda a oração. “Pai”. Jesus nos introduz na relação com o seu “Abbá”, o seu Paizinho. Quantas imagens erradas temos de Deus! Um Deus severo, que castiga, vingativo, implacável… Podemos não dizer isso, mas está no fundo e muitas vezes aparece. Outro dia na Crisma, estávamos conversando sobre um dos evangelhos do envio dos discípulos. Se por um lado é verdade que alguns dos termos usados não eram de fácil interpretação, por outro, muitas interpretações foram para o lado de um Deus que ameaça e pune, tão diferente do Deus revelado por Jesus Cristo! Se as imagens de Deus que nós trazemos dentro aparecem nas reflexões, mais ainda no cotidiano. Ameaçamos as crianças – “Deus tá vendo!”, “Deus castiga!” –, não abrimos nosso coração a Ele na oração, vivemos distantes dele e jogando nossas carências nas pessoas, por não nos darmos conta que estamos diante da Fonte do Amor!
E se saboreássemos durante todo o dia essa palavra “Pai”? Diante dela, percebendo que Ele é Santo, é amor, bondade infinita, misericórdia, O louvamos. Reconhecemos que seu Reinado é de plenitude e sua vontade de vida para todos, e pedimos-lhe que seja feita. É Ele o doador de todos os dons, sobretudo dO Seu Dom, o Espírito Santo, capaz de nos guiar por caminhos de vida.
A segunda palavra é “nosso”. Não é Pai meu, é Pai nosso. Deus é o Pai que nos faz irmãos. Tenho-me deixado fazer irmão do outro? Como tenho vivido a fraternidade e a sorelidade? A minha vontade está alinhada com a do Pai, sendo de vida para todos? Ou se revela nos meus atos uma busca do “para mim”, “para mim”, “para mim”? Como tenho agido e que opções tenho tomado diante dos mais necessitados?
irma-carrega-irmaoVivo no centro de São Paulo, e é tão complicado, porque parece que todas as mazelas sociais do país se manifestam em um só quarteirão. Pessoas sem teto, doentes, mendicantes, dependentes químicos, criminosos de colarinho branco, ladrões de “galinha”, violência, sujeira, fome… aff! É difícil caminhar, porque se é abordado por um ou por outro a cada passo. Esse, que muitas vezes é para mim mais um na multidão, um a mais nas estatísticas – e que, diga-se a passagem, enche bastante a paciência –, para o Pai é único, é seu filho amado. Como isso me toca? Como o olhar do Pai para o meu irmão e os seus sentimentos diante dele transformam o meu olhar e as minhas atitudes? Uma vez ouvi uma estória de uma menina que carregava o seu irmão, pouco mais novo que ela. Ela mal conseguia dar conta. Alguém a parou e perguntou: “Mas como você carrega tanto peso?” Ao que ela respondeu: “Ele não é um peso. Ele é o meu irmão!”
Pedir ao Pai “nosso” o “pão nosso”, e pedir-lhe também o perdão por todas as vezes que as minhas escolhas mais impedem que impulsionam a partilha do pão. Reconhecer diante do seu amor infinito quais são essas escolhas e pedir-lhe a graça de viver como filha e como irmã, não nos deixando cair na tentação que rompe o amor e livrando-nos de todo o mal. Amém!

12º domingo do tempo comum, Ano A

12º domingo do tempo comum, 25 de junho de 2017
    
EVANGELIZAR NOSSA INTERIORIDADE

“Cuidado! Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos; portanto, sede cautelosos como serpentes e inofensivos como pombas.” (Mt 10,16) 

Texto Bíblico: Mateus 10,16-33

1 – O que diz o texto?
À luz do evangelho deste domingo, vamos considerar os “conflitos internos”. E a questão primeira que surge é esta: como integrar, pacificar, harmonizar... os “animais interiores”, para que o seguimento de Jesus Cristo não termine num combate espiritual que desgasta, tornando pesada a vivência cristã e levando ao sentimento de impotência e desânimo?

Somos como a “arca de Noé”, no grande Oceano da vida, carregando em nosso interior todos os animais, com seus instintos selvagens e primitivos; e o maior desafio é, justamente, a harmonia e a convivência, onde cada um deles tem sua importância, seu papel sagrado e revelador da nossa identidade humana. São eles que nos facilitarão o acesso às nossas riquezas interiores.

Algumas vezes agimos como uma cobra, ficamos ariscos e escondidos como uma onça, rugimos como um leão ou atacamos como um cão feroz. Outras vezes, até agimos igual a animais ruminantes que mastigam continuamente os rancores e mágoas do passado.

Eles não cessam de ladrar enquanto não lhes damos atenção. 

É preciso, antes de tudo, pacificar nossos animais interiores. Trata-se de conhecê-los, aprender a linguagem deles, fazer amizade com eles para que eles não nos destruam por dentro. 

Sob o impulso do Espírito, somos chamados a conhecer, reconhecer, nomear e integrar os animais que nos habitam. E caminhar fraternalmente com eles.

Cada um deles representa os instintos, impulsos, paixões, fragilidades, sensualidade, sentimentos... que, quando não pacificados e integrados, criam uma desarmonia interior.


2 – O que o texto diz para mim?
Os conflitos são constantes no caminho da fidelidade ao Evangelho: conflitos externos que surgem a partir da presença inspiradora e provocativa dos(as) seguidores(as) de Jesus; conflitos internos que afloram quando a mensagem evangélica ressoa na interioridade de cada um, desvelando seus contraditórios impulsos, tendências, dinamismos, forças... 

O ser humano vive tencionado entre dois polos: entre luz e escuridão, céu e terra, fragmentação e unidade, espírito e instinto, solidão e vida comum, medo e desejo, amor e ódio, razão e sentimento, sagrado e profano..., enfim, entre animalidade e humanidade.

Não se trata de alimentar uma luta entre esses dois impulsos, como um combate entre o bem e o mal; tampouco se tratam de uma leitura moralista diante da presença das chamadas “tentações”.

O combate dualístico desemboca no puritanismo, no farisaísmo, no legalismo, no perfeccionismo, no voluntarismo..., esvaziando a pessoa de toda densidade humana.

A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos eu alimento; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-me conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito.

Só quando digo sim a esta tensão básica de minha vida é que consigo superar a divisão interna.

Faz parte da maturidade e crescimento pessoal encontrar e entender, em mim, a mensagem e o desafio de animais interiores como a pomba, o cachorro, o corvo, a serpente, a raposa, a perdiz, o lagarto, o falcão, o lobo, o leão... Cada animal deve ser verbalizado, integrado harmoniosamente no tempo certo e no lugar adequado. Ao fazer isso, descobrirei as diferentes dimensões da ecologia espiritual, paradisíaca e harmônica, para bem viver a maravilha da vida plena e em abundância.

Quando todas as energias animais são ordenadas, elas colaboram para o conhecimento pessoal, o refinamento da identidade e a busca da autenticidade, elas são fonte interior de sabedoria e de desfrute espiritual. Então, os animais pacificados  irão me conduzir ao mais profundo e me mostrar onde o tesouro está escondido, e ajudar-me a desenterrá-lo. Aqui está o lado “humanizante” da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Viver uma “vida segundo o Espírito” significa, antes de tudo, chegar à compreensão e integração das polarizações internas, dos dinamismos opostos, dos movimentos contraditórios... que me mantêm “desperta” e que dão calor e sabor à minha existência.

É próprio do Espírito,  reunir, integrar, conciliar, pacificar, conduzir-me a um “lugar interior”, a um centro de calma, onde tudo tem seu lugar, onde tudo encontra seu espaço.

Sua discreta presença me move a acolher em mim meu potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida. 

A atitude fundamental é a de ser dócil para me deixar conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entendo e não sei. 

Fui forçada, durante minha formação cristã, a viver uma espiritualidade que me ensinou a reprimir e a manter presos todos os animais  na gruta interior e a levantar junto dela um edifício de “grandes ideais”. Lutar contra os animais interiores é permanecer na superfície de si mesmo e não ter acesso às reservas de riqueza do próprio coração.

Tal vigilância e suspeita me levaram a viver constantemente com medo de que os animais pudessem fugir e me devorar. Fui obrigada a fugir de mim mesma, ficar com medo de olhar para dentro de mim, pois poderia correr o risco de me deparar com  eles. Quanto mais o amarro, tanto mais perigosos eles se tornam; eles me atacam por dentro, tirando a disposição, o ânimo de viver.

Com isso me excluo do prazer de viver, porque tudo é reprimido e minha animalidade é violentada.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor sei que tudo quanto reprimo faz falta à minha vida. Os “animais selvagens”  tem muita força. Quando os prendo, gera um desgaste muito grande e fica me faltando a sua força de que tenho necessidade para o meu caminho para Deus, para mim mesmo e para os outros. 

Meu compromisso deveria ser a de travar um diálogo amoroso com os animais dentro de mim. Então tornar-se-á realidade o que o profeta Isaías prometeu: “O cordeiro e o leão andarão juntos, e a pantera se deitará com o cabrito...” (Is. 11,6ss).

O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.

Vencido o medo, eu me tornarei autêntica, criativa e audaz seguidora de Jesus.

“Entrar na arca” significa “buscar e encontrar a Deus” exatamente em minhas paixões, em meus traumas, em minhas feridas, em meus instintos, em minha impotência e fragilidade... 

Viver uma nova espiritualidade significa, então, não buscar “ideais de perfeição”, mas dialogar com minhas paixões, minhas fragilidades, minhas carências...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Onde está o meu medo pode estar também o meu tesouro enterrado. 

“Não tenhais medo deles. Não há nada de oculto que não venha a ser revelado, e nada de escondido que não venha a ser conhecido” (Mateus 10,26).

Sem a superação cotidiana desse medo, minha missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. 

Na vivência cristã, o que importa é ter a coragem de entrar na “arca interior” e dialogar amigavelmente com todos os animais. Então eles indicarão o caminho do tesouro escondido. Este tesouro pode ser  “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição, um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu, a imagem que Deus faz de cada um de nós...”

Poderia me interrogar o que é que Deus deseja me revelar por meio delas, e como justamente através delas Ele deseja me conduzir ao tesouro escondido no interior de minha vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 10,16-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Descer no profundo – Fx 13 - (4:21)
Autor: Pe. Jorge Trevisol
Intérprete: Pe. Jorge Trevisol
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora:  Paulinas Comep